A experiência de comunidade na formação da pessoa humana: uma reflexão antropológica desde “band of brothers”.
9 de marzo de 2013  //  Por:   //  Cine y TV, Educación, En Profundidad, Espiritualidad, Pensamiento, Persona, Vida Cristiana  //  No hay comentarios   //   79 Visitas

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1. Introdução

É indubitável que a experiência de comunidade é fundamental na formação da pessoa humana. O seriado “Band of brothers”1, produzido por Steven Spielberg e Tom Hanks, é muito eficaz em mostrar essa realidade. A escolha do nome da obra, aliás, é bastante feliz: é uma referência a uma das peças de teatro de Shakespeare, Henrique V, na qual, o monarca inglês, na iminência de uma batalha contra o exército francês, profere uma famosa arenga na qual chama o exército de “nós poucos” e “bando de irmãos”2.

O exército inglês, com efeito, era muito inferior em número ao francês, que contava também com melhores armas e cavalaria. Aqueles homens, alguns nobres, outros plebeus, estreitaram os laços de amizade a partir da experiência comum de adversidade.

O seriado “Band of brothers” conta a história da companhia3 “Easy”, de paraquedismo militar, que lutou na segunda guerra mundial desde o desembarco em Normandia, em junho de 1944, até a rendição da Alemanha e do Japão, em agosto de 1945. A maioria dos homens que se alistaram voluntariamente na “Easy” não possuiam nenhum conhecimento militar previo, e por isso passam por um periodo de exigente treinamento no campo de Toccoa. O primeiro episódio de “Band of brothers” mostra o processo de treinamento, que é fundamental para entender a união que se gera entre os homens da “Easy”, e apresenta os personagens principais da história, tais como Richard Winters, Eugene Roe, Denver “Bull” Randleman, Donald Malarkey, Lynn “Buck” Compton, Joseph Toye, William “Wild Bill” Guarnere, Lewis Nixon, Herbert Sobel, Carwood Lipton, Robert “Popeye” Wynn, John Martin, George Luz, ou Darrell “Shifty” Powers.

Pode-se comprovar ao assistir o seriado, que cada um dos personagens passar por um processo de amadurecimento. Trata-se de um amadurecimento que acontece de maneira diferente em cada um, de acordo com as características pessoais, mas também como fruto das opções livres que cada um vai tomando. Além desse amadurecimento pessoal, pode-se identificar também um amadurecimento da companhia como um todo, uma consolidação da mesma como uma comunidade de “irmãos”. Assim como o exército de Henrique V, composto por nobres e plebeus, vemos na companhia Easy uma composição diversa. Alguns são simples camponeses, outros provêm dos subúrbios de alguma grande cidade, outros de famílias mais abastadas. O nível cultural também é variado: alguns estudam na Universidade ou já possuem título universitário. Outros são pessoas muito simples, que depois da guerra trabalharão como carteiros ou pedreiros. Essa diversidade não será empecilho para a formação da comunidade, em torno de um ideal comum, que é o que dá identidade e sentido à mesma.

O presente trabalho visa aproveitar esse duplo amadurecimento, magistralmente retratado em “Band of brothers”, para desenvolver uma reflexão antropológica, com o intuito de compreender melhor o papel da experiência de comunidade na formação da pessoa humana. Entendemos que uma tal reflexão antropológica não poderia passar por alto algumas experiências mais específicas, que vem como que atreladas à experiência mais ampla de comunidade, e que são também fundamentais na formação da pessoa humana, como são: o treinamento, Deus, o outro, a autoridade e o ideal.

Antes de abordar cada uma dessas experiências mais específicas, que nos ajudarão a entender melhor a formação da pessoa na comunidade, será nessário esclarecer alguns termos que estarão presentes ao longo da nossa análise, tomados do personalismo de Karol Wojtyla: pessoa humana, experiência do homem e comunidade de pessoas.

2. Esclarecimento de alguns termos

a. A pessoa humana

Aristóteles define o homem como animal racional. Trata-se de uma definição muito boa desde o ponto de vista lógico. Ela reflete o conhecimento da espécie homem, cujo gênero é a animalidade e sua diferença específica é a racionalidade. Não pode ser negada a tal definição o reconhecimento da sua clareza e que toca algo que no homem é essencial. Mas ao mesmo tempo, algo parece ficar de fora, que caracteriza a todos e cada um dos homens concretos. Diferentemente dos animais, que podem ser reduzidos a representantes de uma espécie (ou a partes da mesma), com os homens não acontece a mesma coisa. Cada homem é único e irrepetível e esse dado escapa à definição aristotélica.

A razão da ineficácia da definição aristotélica para exprimir a unicidade e irrepetibilidade do homem é a redução cosmológica que pressupõe. Animal racional é a resposta certa para a pergunta “o que é o homem?”. Ao perguntar dessa maneira, Aristóteles obvia um dado da experiência: que o homem não é “algo”, senão “alguém”. O ponto de partida de toda pesquisa antropológica, dessa maneira, não pode ser a pergunta “o que é o homem?”, mas sim “quem é o homem?”.

É como se estivéssemos em casa e de pronto alguém batesse à porta. Nunca nos perguntamos, nessa situação, “o que é?”, mas sim “quem é?”. Essa é a maneira adequada de perguntar, quando se trata de realizar uma pesquisa antropológica. Pelo menos ao perguntar dessa maneira garantimos que não ficará de fora esse dado da experiência que é a unicidade e irrepetibilidade de cada homem concreto.

Essa característica do homem, que o diferencia radicalmente dos outros seres vivos materais, a da unicidade e irrepetibilidade, somente pode se explicar a partir de algo nele que seja irredutível ao mundo material. Esse algo é invisível mas não inacessível a nós. Não se trata de algo meta-fenomênico, isto é, para além da experiência, senão trans-fenomênico, que perpassa toda a experiência e que se mostra ou revela em cada um dos seus momentos.

É precisamente a subjetividade, o invisível no homem, o que o diferencia dos outros seres vivos materiais, e o que nos permite dizer que ele é pessoa, alguém, e não algo. Existem muitas definições do termo pessoa ao longo da história da filosofia. O uso filosófico do termo se inaugura nas discussões em torno do mistério da Santíssima Trindade e da divindade de Jesus Cristo. Pessoa é aplicado em primeiro lugar a Deus e depois, por derivação analógica, ao homem. A possibilidade da analogia descansa no diferancial do homem com relação às outras criaturas materiais: ele é o único criado à imagem e semelhança de Deus. Esse diferencial é expresso na definição clássica: substância individual de natureza espiritual.

Também existe uma outra vertente filosófica que busca acentuar mais o elemento relacional, a partir da origem etimológica do termo. Com efeito, pessoa vem do latim personat, fazendo referência às máscaras que eram utilizadas no teatro da antigüidade, que amplificavam a voz dos atores, cada uma expressando um estado de ânimo diferente. A pessoa é vista assim como um ser em relação, com uma dimensão interior, mas em constante abertura ao mundo, e de maneira especial com outros semelhantes a ele, seus inter-locutores.

Na realidade, as duas vertentes acima expostas, indicam dois elementos fundamentais para entender a pessoa humana: ao afirmar que ela é substância reconhecemos o substrato metafísico ou suppositum (primeiro elemento) da pessoa humana, que fornece o suporte ontológico para a constituição da mesma enquanto sujeito pessoal (segundo elemento)4.

b. A experiência do homem

Afirmamos acima que a subjetividade é invisível mas acessível a nós, porque é revelada a nós na experiência. Entendemos aqui a experiência no mesmo sentido que Karol Wojtyla na introdução da sua obra “Osoba i czyn” (Pessoa e ação)5:

  • Toda experiência que o homem tem de alguma realidade exterior a si mesmo é ao mesmo tempo experiência do próprio eu. As duas acontecem simultaneamente.
  • Característica fundamental da experiência do homem é a sua unidade. Essa unidade não é um produto da mente, senão que provém da realidade mesma do homem, que é o objeto da experiência do homem.
  • A experiência do homem é então uma seqüência de momentos empíricos, uma realidade contínua, uma totalidade que inclui muitas experiências específicas e o objeto dessa experiência é o homem.
  • O homem é ao mesmo tempo sujeito e objeto da experiência do homem. O homem é quem experimenta e o experimentado ao mesmo tempo. Esse homem experimentado refere-se não apenas aos demais, mas sobretudo ao si mesmo como objeto.
  • Ainda que exista uma unidade fundamental do objeto experimentado, as experiências de mim mesmo e dos demais são experiências distintas: no primeiro caso o homem é dado a mim como “eu” e, portanto, mais direta e distintamente que qualquer outro homem que não seja eu mesmo.
  • A experiência é uma forma de compreensão: cada experiência inclui um componente intelectual de compreensão, de maneira que é um encontro cognoscitivo com a realidade objetiva. A compreensão é intrínseca à experiência humana, mas também a transcende. A compreensão sempre pressupõe uma experiência. Experimentar é uma coisa e compreender é outra. A experiência é de natureza sensorial, enquanto que a compreensão e a interpretação são de natureza intelectual.
  • A experiência não é fenomenismo: o que nos é dado na experiência do homem não são suas características acidentais, mas o homem enquanto tal.

As reflexões que seguem versam sobre a experiência humana de um grupo específico de homens, que é retratada no seriado Band of brothers. Os depoimentos ao início de cada capítulo dão testemunho do esforço dos realizadores por ser fiéis à experiência dos homens da companhia Easy. Tentaremos, na medida do possível, fazer mais referência a esses depoimentos. Nesse sentido, o conhecimento sobre a pessoa humana que poderemos adquirir com as nossas reflexões não provém da experiência do homem enquanto um “eu”. Essa, como sabemos, é a experiência na qual o homem nos é dado da maneira mais direta. Mas, como afirma Wojtyla em “Osoba i czyn”, “uma relação experiencial externa pode aportar muitas pistas cognoscitivas, o que seria impossível contando somente com a experiência do próprio eu” (p. 6)6.

c. A comunidade de pessoas

Para entender o que é uma comunidade7 de pessoas é fundamental a noção de participação. Ela abrange dois sentidos: a capacidade da pessoa de realizar-se na ação com os demais e a capacidade de reconhecer no outro um eu-pessoal único e irrepetível. Esse reconhecimento passa pela consideração da subjetividade (ôntica e experimentada) própria e do outro.

Outro aspecto importante é o primado metafísico do sujeito pessoal sobre a comunidade. O único sujeito ôntico da comunidade é a pessoa.

A alienação, processo inverso à participação, é a incapacidade da pessoa de realizar-se na ação com os demais.

Assim como é possível compreender a pessoa de uma maneira objetivista e outra personalista, que inclui a experiência, é possível também entender a comunidade, analogamente, dessas duas maneiras. Nesse sentido, não basta com considerar as pessoas como membros de uma comunidade, apenas como sujeitos substanciais. É necessário levar em consideração a subjetividade pessoal, para ver o interior das relações, isto é, “a consciência e a experiência da relação de caráter interpessoal ou social de um determinado grupo humano”8. O conceito adequado de comunidade, de acordo com a compreensão personalista é “a relação, o vínculo e a unidade social experimentados na consciência e na vida dos sujeitos individuais”9.

Na análise da comunidade desde o ponto de vista da subjetividade pessoal do homem, podem distinguirse duas dimensões: dimensão interpessoal (eu-tu) da comunidade e dimensão social (nós) da mesma. As duas dimensões ou perfis da comunidade consistem essencialmente em uma abertura e configuram-se no plano da transcendência própria da pessoa.

A dimensão social da comunidade manifesta diretamente uma multiplicidade, indica sobretudo uma coletividade, não possui, em si, um ser substancial, e suministra uma base para um julgamento sobre todos (em primeiro lugar) e cada um (segundo lugar) nessa coletividade.

Em contraste, a dimensão interpessoal da comunidade manifesta indiretamente uma multiplicade, a través da relação eu-tu (um mais um). É nela (relação eu-tu) que toma forma a autêntica comunidade interpessoal. A dimensão interpessoal é a que abre diretamente o homem ao homem. Na dimensão interpessoal participar significa voltar-se para o outro eu sobre a base da transcendência pessoal, voltar-se à verdade plena do homem (à humanidade). Essa humanidade é dada como um tu para o eu e não como ideia abstrata de homem.

Tentaremos voltar, em cada um dos exemplos que serão tratados, sobre estes conceitos. Mas é bastante claro para quem assiste o seriado Band of brothers que a unidade e identidade da companhia é construida sobre a base de relações interpessoais em primeiro lugar. A identificação de cada homem com o “nós” tem como fundamento último as relações “inter-pessoais” que estabeleceu com outros homens da companhia. Isto fica bastante claro, por exemplo, na relação dos homens com o tenente (e depois major) Winters. Winters não se relaciona com os soldados como simples anônimos, senão que se preocupa com cada um. Chama a atenção, por exemplo, a impressão que causa nele a morte do soldado Hall, durante uma operação bem-sucedida, na qual a companhia Easy, em inferioridade numérica, destruiu uma bateria alemã de canhões (105mm. Howitzers)10.

3. Cinco aspectos da experiência de comunidade em Band of brothers

a. Currahee: o treinamento para uma missão

O primeiro capítulo explica o início da constituição da companhia Easy como uma comunidade. O treinamento no campo Toccoa é bastante exigente e o tenente Sobel, responsável pela companhia, mostra-se bastante rigoroso com os homens. Seu objetivo é tornar a companhia Easy a melhor de todo o regimento. A experiência comum de exigência une bastante os homens. Uma delas é correr até o topo de uma montanha, chamada “Currahee” (nós suportamos sozinhos), três milhas de subida e três de descida, em menos de 23 minutos. Os homens tem que fazer esse percurso muitas vezes, inclusive totalmente equipados. “Currahee” termina-se tornando o lema da Easy. Depois veremos, no episódio que narra a batalha do Bulge, em que a companhia Easy recebe a missão de conter a contraofensiva alemã em Bastogne, de que maneira amadurece em cada um dos soldados essa experiência inicial do “Currahee”. Eles suportam durante semanas, em inferioridade numérica e com escasez de recursos, em um frio bastante intenso, os ataques da elite do exército alemão. Quando finalmente chegam os reforços com as forças lideradas por Paton e os alemães são finalmente expulsos da região, nenhum dos soldados da companhia Easy, desde aquele momento até o presente, reconheceu que tivesse sido resgatado.

O treinamento inicial senta as bases para a formação da comunidade. Mas também é verdade que a existência de uma comunidade de pessoas, que compartilham um ideal e uma missão, é um ambiente bastante favorável para um itinerário formativo. Acreditamos que isto se aplica não somente ao âmbito militar. A experiência dos homens da Easy, de serem formados, treinados, para cumprir uma missão extremamente difícil, é sem dúvidas uma experiência de realização na ação com os outros. No período formativo o efeito principal da ação é predominantemente imanente ou práxico, isto é vai formando o caráter de cada uma das pessoas que se inserem no processo. E dentro dessa formação do caráter um dos elementos primordiais, senão o principal, é aprender a trabalhar em equipe, saber se comunicar com os demais, conhecer as capacidades e fraquezas dos companheiros, aprender a confiar neles e também estar disposto, se a situação assim o requer, a se sacrificar pelos demais.

Importância da exigência na formação de uma comunidade, a comunidade também como um âmbito propício para a formação da pessoa humana. São dois elementos presentes não apenas na vida militar, mas para a vida humana em geral. Sobre eles poderíamos nos estender muito mais ainda. Mas por ora é suficiente o já mencionado, para os fins do nosso trabalho.

b. Deus e a missão

Uma reflexão estritamente antropológica não poderia omitir o tema de Deus. E de fato o tema religioso é uma constante em quase todos os episódios de Band of Brothers. No primeiro episódio, por exemplo, vemos vários homens rezando antes da saltar de paraquedas no dia d. Alguns rezam o terço, outros fazem o sinal da Cruz. Em outras ocasiões aparece algum capelão militar confissando soldados ou celebrando missa, ou impartindo a unção dos enfermos a algum moribundo. Queremos, no entando, fixar a atenção em uma das personagens em particular. Trata-se do soldado Eugene Roe, chamado pelos outros soldados “Doc” Roe. “Doc” Roe é o principal personagem do episódio que narra a batalha do Bulge, no qual os homens da companhia Easy defendem a posição americana em Bastogne. “Doc” Roe se desempenha como enfermeiro e tem que lidar com o alto número de baixas, doenças diversas dos soldados por causa do frio e a escasez de medicamentos e suprimentos em geral.

Os enfermeiros eram escolhidos entre os soldados comuns e recebiam um treinamento adicional para desempenhar esse trabalho. Não eram médicos, embora assim fossem chamados pelos outros soldados. Seu trabalho consistia em dar um primeiro atendimento para os feridos para depois encaminhá-los a um hospital militar. Esse trabalho os colocava constantemente com a dor e o sofrimento aheios. Geralmente uma sensação de impotência acompanha o “Doc” Roe, porque não é muito o que pode fazer para ajudar, devido à escasez de recursos.

O que mais chama atenção é como entende “Doc” Roe sua missão de enfermeiro. Diferentemente de outros enfermeiros, que não se questionam sobre o assunto, ele entende que se trata de uma missão encomendada por Deus. Isto fica bastante claro, por exemplo, em uma cena em que ele aparece rezando a oração a São Francisco11, justamente antes de entrar em ação.

Também em outro diálogo, com Reneé, uma enfermeira de Bastogne, que apesar de todo o bem que fazia e do alívio que levava a tantas pessoas, via na sua missão uma espécie de maldição, Roe chama atenção para um fato que tinha observado, da capacidade de levar alívio às pessoas só com o toque das suas mãos, e de que isso é um dom de Deus.

Outro elemento que chama a atenção do personagem é que chama os outros sempre pelo seu nome, procurando nunca usar apelidos. A reverência no trato dos demais é outra das suas características. Há nele uma particular sensibilidade, que o leva a estar atento às necessidades dos demais, a não estar tão centrado em si mesmo, e sim nos que se encontram mais fragilizados.

Vimos anteriormente a importância das relações eu-tu na constituição da comunidade, isto é, da dimensão interpessoal da mesma. O exemplo concreto do “Doc” Roe pode se enquadrar, em boa medida, dentro desta dimensão, embora, neste caso, o tu não seja humano, e sim divino. Vemos, com efeito, que o encontro com o Tu divino, como aquele que chama, convoca para uma missão, e se coloca a si mesmo como o primeiro a encarnar o amor e o serviço na Cruz, é o que alimenta a entrega aos outros tus, os humanos, especialmente àqueles que mais precisam.

Outros personagens também mostram este recurso à fé, principalmente diante de situações limites, onde parece que somente com o auxílio divino, da fé em Deus, poderão responder. Com efeito, parece que muitas vezes as forças humanas são insuficientes para sustentar uma comunidade. É aqui onde a humanidade mais descobre à necessidade de abrir-se à ajuda que vem do alto, à graça.

c. O outro que me ajuda a descobrir quem sou

Fixaremos agora a atenção sobre um tema que é também uma das evidências da experiência humana: no encontro eu-tu, no qual o eu reconhece o outro também na sua subjetividade experiencial, na sua unicidade e irrepetibilidade, a volta para a si mesmo é mais enriquecida, de maneira que se pode afirmar que a constituição do próprio eu passa pelo encontro dialogal com os outros tu, que vão mostrando e forjando a sua identidade.

Um exemplo disto o encontramos no episódio 4, intitulado Carentan, que narra a luta do soldado Albert Blithe contra seus próprios medos. Depois de ter tomado a cidade francesa de Carenthan, agora a companhia Easy tem que resistir a contraofensiva das forças alemãs, com o apoio das companhias Dog e Fox. Na véspera da batalha decisiva, Blithe tem um diálogo muito importante com o capitão Ronald Speirs.

Speirs explica a situação de Blithe, o fato de ter se escondido depois do salto no dia D, e não ter ajudado seus companheiros, e desde então estar bloqueado pelo medo. Ele afirma que o problema de Blithe é que ele ainda tem esperança de viver. Segundo a particular visão de Speirs, Blithe conseguirá agir como um soldado a partir do momento em que aceitar que já está morto.

O conselho de Speirs pode soar um pouco estranho, mas de fato funciona, já que Blithe, na seguinte batalha consegue lutar, agir como um soldado e em uma cena posterior se oferecerá para ir à frente de um pelotão para explorar o território e acaba sendo ferido por um francotirador.

Em um ponto, pelo menos, podemos concordar com Speirs e é que alguém que está preocupado em todo momento por preservar a própria vida, por evitar ser ferido, não poderá desempenhar-se como soldado. Ele terá necessariamente que se arriscar e de fato para isso foi treinado. Acreditamos que este exemplo pode ser aplicado, analogicamente, a toda vida humana. A pessoa que faz da segurança, da tranquilidade, da preservação do próprio eu, o objetivo da sua vida, termina caindo na atrofia, naquilo que Saint Exupery descreve também em “Terra dos homens” quando se dirige ao velho burocrata12.

É aqui que a nossa reflexão antropológica pode receber uma luz da fé cristã. Pensamos neste momento na passagem em que o Senhor Jesus exorta seus discípulos a serem como graõs de trigo que morrem para dar muito fruto: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama a sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna”13. Esta verdade antropológica fundamental do cristianismo também foi expressa de forma muito bela pela constituição dogmática Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II: “Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”14.

d. A autoridade

Um seriado que narra a história de uma unidade militar, toda a sua trajetória na campanha aliada na segunda grande guerra, não podia deixar de abordar o tema da autoridade. Sem dúvidas a figura central do seriado é o major Dick Winters, sobretudo pelo dom de mando que demonstra possuir, pela sua capacidade para tomar as decisões certas e para liderar os homens rumo à vitória. Também pela compaixão que demonstra, sua preocupação real por cada um dos homens que se encontram sob seu comando. Nehum é para ele um anônimo, fato que fica patente por como se comove diante da perda de vidas humanas em ação.

Queremos, porém, dirigir agora a atenção a um outro personagem, deixando Dick Winters para um futuro trabalho. Trata-se do sargento Denver “Bull” Randleman, quem protagoniza o episódio 4, intitulado “Substitutos”. Depois das baixas sofridas no dia D e nas campanhas que lhe sucederam, a companhia Easy recebe reforços ou substitutos. Chama a atenção entre os depoimentos no início do episódio, o de um dos veteranos, que afirma que ele não tinha vontade de se fazer amigo dos novos membros da companhia. Isso porque ele percebia que os substitutos, querendo impressionar os mais antigos, assumiam atitudes temerárias em combate e acabavam sendo feridos com muita facilidade e isso lhe causava muito sofrimento.

Os substitutos sabiam que estavam entrando em uma companhia de “heróis” e isso para eles gerava um sentimento de uma certa obrigação de estar à altura. Alguns dos antigos também assumiam uma atitude um tanto hostil, brincando e menosprezando os mais novos. Não é esta a atitude de Randleman, quem vai assumir o mando de um pelotão composto por vários dos substitutos. Chama a atenção que em nenhum momento Randleman menospreza os homens sob seu comando, mas em todo momento os aconselha e prepara para o cumprimento da missão.

Quando Randleman desaparece em ação, e é obrigado a esconder-se em um celeiro, serão os homens sob seu comando os que emprenderão uma missão de resgate, colocando em risco suas próprias vidas.

Vemos, então, por um lado, em Randleman, a autoridade entendida como serviço, que se expressa na atenção a necessidade dos outros, na bondade para não julgar ou menosprezar quem se encontra inseguro ou temeroso e no exemplo de coragem e de entrega na missão. Por outro lado, por parte dos homens sob o comando de Randleman, vemos a preocupação por aquele que é sua autoridade mais diretamente, até o ponto de colocar em risco a própria vida para ir em seu resgate.

e. O ideal

Embora o tema do ideal perpasse o seriado inteiro, a reflexão explícita sobre esse assunto fundamental se encontra no episódio nove, intitulado “Por isso nós lutamos”. Essa reflexão torna-se necessária no momento em que se produz o encontro com o inimigo, já não mais no campo de batalha, mas cara a cara, na sua condição de vencido. A experiência de comunidade, tão valorizada ao longo do seriado, nesse momento crucial, é apresentada como não exclusiva dos aliados. Os inimigos também têm essa experiência. São apontadas semelhanças entre vencedores e vencidos, e em alguns personagens assoma uma certa crise de identidade diante da constatação de tais semelhanças.

Diante de uma possível interpretação relativista, que valorizaria a comunidade em si mesma, independente do ideal que ela serve, é mostrada a crua realidade dos campos de concentração. A libertação de tantas pessoas, submetidas a condições infrahumanas é aquilo que dá sentido a todo o esforço realizado ao longo da guerra. Toda comunidade humana possui um valor relativo. O critério determinante do valor de uma determinada comunidade é o ideal que ela serve, isto é, se esse ideal está de acordo com a dignidade da pessoa humana. Alguns ideais, como o nazista por exemplo, não levam a pessoa humana à sua realização, mas têm sobre ela um efeito alientante.

Este efeito alienante se manifesta no tratamento dado às pessoas nos campos de concentração. Esse tratamento evidencia uma incapacidade para ver no outro uma pessoa humana, um eu-pessoal que experimenta a sua subjetividade. Ele não é mais um tu, senão uma coisa, um obstâculo.

Esta parece ser a conclusão do seriado: a comunidade tem que estar ao serviço de algo bom, senão pode desvirtuar-se e convertir-se em uma estrutura ao serviço da alienação. E esse efeito de alienação irradia não só ao interior da própria comunidade, senão que se projeta para fora dela. De fato, uma guerra é um exemplo dessa projeção.

Aqui pode ser de muita utilidade citar o papa Pio XII, em uma das suas mensagens natalinas do tempo da guerra, em que faz uma distinção entre “massa” e “povo”. Segundo o pontífice, os cidadãos que fazem parte de um verdadeiro povo são participativos, conscientes da sua personalidade, deveres e direitos, da sua liberdade unida ao respeito da liberdade e dignidade dos demais15. A unidade e vitalidade de um povo não são desvirtuadas pela diversidade dos que o conformam. A diversidade, fundada na natureza das coisas, nos permite perceber o valor da autêntica igualdade civil: “cada um tem o direito de viver honradamente sua existência pessoal, no posto e nas condições em que os desígnios e a disposição da Providência o colocaram”16.

4. Conclusão

O presente trabalho procurou mostrar a importância da experiência de comunidade na formação da pessoa humana. Depois de esclarecer os conceitos de pessoa, comunidade e experiência buscamos exemplos desse papel formativo da comunidade na experiência dos homens da companhia Easy, retratada pelo seriado Band of brothers. De maneira muito rápida vimos algumas das experiências que caracterizam a vida em comunidade, como são: a partilha de situações de forte exigência como um exemplo de ação com os outros que realiza a pessoa humana; o encontro do eu com o Tu divino, como uma necessidade que brota do encontro com os tus humanos, em atitude de serviço e entrega generosa; a importância do encontr eu-tu na busca da própria identidade e na fidelidade a essa identidade e, finalmente, a importância do ideal como aquilo que reúne a todos os membros da comunidade e que tem que se enquadrar no bem para a pessoa humana, já que, se não for assim, a comunidade termina-se tornando uma estrutura ao serviço da alienação da pessoa humana.

© 2013 – Martín Ugarteche Fernández para el Centro de Estudios Católicos – CEC

 

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Martín Ugarteche FernándezAcerca de Martín Ugarteche Fernández (5 Posts)

Martín es el coordinador del CEC en Brasil.


Notas:
  1. HANKS, T. et SPIELBERG, S. Band of brothers. HBO, 2002. []
  2. O célebre discurso de São Crispin, no qual Henrique V define o exército inglês como um bando de irmãos, se encontra na cena 3, do ato 4 da obra Henrique V de William Shakespeare. O texto está disponível em: http://internetshakespeare.uvic.ca/Library/Texts/H5/F1/scene/4.3 (último acesso: 11 de setembro de 2011). Reproduzimos aqui o trecho que nos interessa:

    “And Crispine Crispian shall ne’re goe by,

    From this day to the ending of the World,

    But we in it shall be remembred;

    We few, we happy few, we band of brothers:

    For he to day that sheds his blood with me,

    Shall be my brother: be he ne’re so vile,

    This day shall gentle his Condition.

    And Gentlemen in England, now a bed,

    Shall thinke themselues accurst they were not here;

    And hold their Manhoods cheape, whiles any speakes,

    That fought with vs vpon Saint Crispines day”. []

  3. Uma companhia é composta geralmente por um número de 80 a 225 homens. Ela é comandada por um capitão ou um major. A companhia é composta por pelotões. O pelotão agrupa de 26 a 55 homens. O conjunto de companhias forma o batalhão, que chega a reunir entre 300 e 1300 homens. O batalhão é comandado por um coronel ou tenente-coronel. Por sua vez, o conjunto de batalhões forma um regimento ou brigada, integrada por um número de 3000 a 5000 homens. O regimento é comandado por um coronel ou brigadeiro. A companhia Easy fazia parte do 506° regimento de infantaria paraquedista, ao mando do coronel Robert Sink. A 10 de junho de 1942, o regimento passa a fazer parte da 101° divisão aerotransportada de exército dos Estados Unidos. Os homens do 506° regimento foram treinados todos no campo de Toccoa. O regimento assumiu a expressão “Currahee” como grito de guerra, devido à montanha com o mesmo nome situada perto do acampamento (trata-se de uma palavra na língua dos índios cherokee, que significa “suportar sozinhos”). Como parte do treinamento, os homens do regimento tinham que subir correndo a montanha. []
  4. Quando Wojtyla fala do “eu” considera tanto a subjetividade experimentada quanto a subjetividade ôntica. Quando fala do “suppositum” somente abrange a subjetividade ôntica. []
  5. Wojtyla, K. Persona y acción. Madrid: BAC, 2007. []
  6. Tradução livre do autor. Apresentamos o texto original do autor: “Una relación experiencial externa puede aportar muchas pistas cognoscitivas, que sería imposible tener contando solamente con la experiencia del propio yo”. []
  7. Pode ajudar também a entender o que é uma comunidade a comparação com a sociedade. Em certo sentido, a sociedade (o grupo social, a coletividade, etc.) se realiza através da comunidade. A comunidade aparece como essencial para todos os membros de uma sociedade ou grupo social dados. As relações em uma sociedade podem se tornar fonte de alienação quando desaparece a comunidade, ou seja, a relação, o vínculo e a unidade social experimentados na consciência e na vida dos sujeitos individuais. Cf. WOKTYLA, K. Sujeto y comunidad, p. 77. []
  8. WOJTYLA, K. Sujeto y comunidad, p. 77. []
  9. Lug. Cit. []
  10. Band of brothers, episódio 1. []
  11. Reproduzimos a tradução ao português desta oração:

    Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.

    Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,

    Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.

    Onde houver Discórdia, que eu leve a União.

    Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.

    Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.

    Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.

    Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.

    Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

    Ó Mestre,

    fazei que eu procure mais:

    consolar, que ser consolado;

    compreender, que ser compreendido;

    amar, que ser amado.

    Pois é dando, que se recebe.

    Perdoando, que se é perdoado e

    é morrendo, que se vive para a vida eterna!

    Amém. []

  12. SAINT-EXUPÉRY, A. Terra dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1956, p. 28. Reproduzimos aqui parte do texto: “Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas. Não queres te inquietar com os grandes problemas e fizeste um grande esforço para esquecer tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem”. []
  13. Jo 12,24-25. []
  14. Gaudium et spes, 24. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html (último acesso em 14/09/2011). []
  15. Pio XII, Benignitas et humanitas, p. 3. []
  16. Pio XII, Benignitas et humanitas, p. 3. []
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